CURIOSIDADES DE CULTIVO NO CERRADO
Francisco Benedito Wiechert
Acompanhando o desenvolvimento de orquídeas provenientes
dos mais diferentes pontos do planeta, com condições de cultivo
variando de região para região, comecei a perceber que certas
plantas não se adaptavam ao ambiente de meu orquidário, mas tinham
um cultivo excepcional em outro de um amigo meu. E o mesmo ocorria com algumas
plantas dele que não se desenvolviam bem lá, entretanto a mesma
planta tinha um viço saudável em meu orquidário e com ótimas
florações.
O mesmo ocorreu em um terceiro orquidário, de um outro conhecido, o que me deixava muito intrigado. Comecei a pesquisá-las e descobri que se tratava das mesmas plantas, algumas inclusive eram procedentes da mesma sementeira. Para exemplificar, um dos espécimes em questão era uma C. walkeriana tipo, orquídea ainda comum na região central do Brasil, onde normalmente não se encontram dificuldades para seu cultivo. Nos dois orquidários, um a céu aberto e outro de telado, tipo sombrite, elas se desenvolviam de forma exuberante, mas no orquidário coberto com telha de fibra de vidro seu desenvolvimento era quase nulo.
O mesmo ocorria com alguns tipos de Dendrobium e C. bicolor, que apresentavam desenvolvimento lento e qualidade inferior ao que ocorria nos orquidários "abertos" e em troncos de árvores. Fazendo a triangulação dos dados de cultivo dos três orquidários, no que se referia às regas, adubação, luminosidade, arejamento etc, percebi que os três eram praticamente idênticos. Com o tempo e a devida coleta de dados pude constatar que as diferenças ocorriam nas temperaturas mais elevadas no orquidário com telha de fibra de vidro, não somente durante o dia mas também à noite.
Outro dado peculiar é que certas plantas, como as citadas neste estudo, necessitam do orvalho da noite mesmo no período de suspensão de regas. Também observando certas orquídeas em seu hábitat natural, como por exemplo a C. walkeriana, verifiquei que mesmo no apogeu da seca, que aqui na região central do Brasil ocorre entre julho e agosto, quando elas absorvem umidade apenas durante a madrugada, por meio do orvalho, que apesar de nesta época se reduzir a níveis muito baixos, é de suma importância para o ciclo da planta. Cheguei à conclusão que estando sob o telhado de fibra, essas plantas sentiam falta deste tipo de absorção de umidade, e a diferença de temperatura entre o dia e a noite, que é menor do que se as cultivarmos ao ar livre, onde as temperaturas variam mais entre esses períodos, afetando assim seu desenvolvimento.
Mas o telhado de fibra de vidro tem se mostrado excelente no cultivo de plantas como os Paphiopedium, Phalaenopsis, diversos tipos de Encyclia e Cattleya, entre outras no meio do cerrado.
Verdade, ainda temos muito o que pesquisar no campo de cultivo, mas vale observar em seu orquidário, aquelas plantas que possam estar apresentando problemas de atraso na brotação e no desenvolvimento. Às vezes tudo que elas precisam é de um empurrãozinho, "para lá ou para ca", para retornar a terem um desenvolvimento de qualidade.
Francisco Benedito Wieckert é microempresário
e orquidófilo associada à SOB desde 22.02.2000.