Curiosidades Orquidófilas

Paulo Cesar Daux Filho

Do Reino Vegetal são as orquidáceas a família de plantas mais derivadas e diversificadas existentes. Em tanta diversidade, relativamente ao modo de vida e forma de nutrição, há uma orquídea que se destaca. É a Rhyzantella gardnerii, planta australiana que cresce associada a um fungo, é saprófita (alimenta-se de matéria orgânica em decomposição) e chega a florescer no subsolo, onde besouros escavadores de galerias polinizam as flores.

Há orquídeas utilizadas como remédio, como as do gênero Catasetum, que são utilizadas na medicina popular (no estado de Santa Catarina) para o tratamento de câncer de pele, outras são utilizadas em florais, com efeitos calmantes e estimulantes.

Mas, as maiores curiosidades relativas à família Orchidaceae, sem dúvida, são os mecanismos de polinização. Nesse processo, planta e agente polinizador parecem ter evoluído lado a lado ao longo de milhares de anos, de forma que somente determinado inseto poliniza determinada orquídea. Nesse quesito, uma orquídea européia, Ophrys insectifera, possui uma estratégia interessante: o labelo dessa planta imita a fêmea da vespa Argorytes mystaceus, liberando inclusive o feromônio idêntico. O macho pousa no labelo e tenta copular com o que pensa ser uma fêmea e, nessa movimentação, as políneas acabam presas a sua cabeça; mais tarde, o inseto tenta copular com outro labelo de outra Ophrys insectifera e acaba por polinizar a flor. No Brasil, existem plantas do gênero Catasetum, cujas flores masculinas e hermafroditas têm anteras que possuem um interessante mecanismo de ejeção: as anteras possuem uma concrescência na base, com duas projeções filiformes que, ao serem tocadas, ejetam as anteras bruscamente, aderindo-as firmemente no dorso do inseto que pousou na flor e, quando este pousa em uma flor feminina ou hermafrodita, ocorre a polinização (lembrando que as Catassetíneas possuem dimorfismo sexual). Outro interessante mecanismo de polinização é o das plantas do gênero Coryanthes, que ocorrem em Honduras, Guatemala, Brasil e Peru. Possuem o labelo em forma de cálice e a flor sofre uma contorção fabulosa. Um par de glândulas na base da coluna verte uma secreção líquida que enche o labelo. As abelhas, atraídas para os bordos carnosos do labelo, atropelam-se e acabam por cair dentro do líquido que preenche o cálice formado pelo labelo. A coluna fica arqueada para baixo, com sua parte inferior voltada para dentro do cálice formado pelo labelo e as anteras estão exatamente na saída da única abertura de fuga para as abelhas que caem. Se as abelhas caírem numa segunda flor, ao saírem deixarão as políneas no estigma, efetuando a polinização. Há, no Brasil, ainda, algumas espécies do gênero Octomeria, cujo odor emitido pelo labelo é extremamante desagradável e a polinização é feita por moscas.

Quando nos deparamos com a exoticidade das flores dessas plantas, que tanto nos enchem os olhos, podemos ter certeza que estamos observando um dos maiores requintes da natureza, alguns milhares de anos de um trabalho incessante em busca do sucesso reprodutivo.

Paulo Cesar Daux Filho é biólogo e orquidófilo em Santa Catarina

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